Uma pacifista na Colômbia

No dia 26 de fevereiro completará um ano que me mudei para Colômbia. Nessa última semana tive que transferir todas minhas fotos e, o que parecia uma tarefa bem chata, acabou me trazendo memórias e me inspirando para compartilhar como o programa Semilla, ECAP e Colômbia têm mudado meu coração, a forma como vejo minhas raízes latinas, como vejo Deus, como meu vejo o próximo e um pouco do que tenho aprendido sobre pacifismo.

Minha fé e confiança em Deus foi bem fortalecida antes de sair do Brasil. Ao saber que havia sido aprovada para fazer parte do programa, meu coração se viu dividido entre embarcar nessa experiência, em um país desconhecido, com uma língua desconhecida, sem ao menos o que  faria ou onde moraria e a possibilidade de seguir minha vida no Brasil, com alguns desafios familiares, mas com a segurança que só nosso lar pode nos trazer.

Semilleros participam da ação não violenta pela liberdade do líder campesino Alvaro Garcia

Há um ano cheguei na Colômbia e ainda passo pela adaptação com o clima de Barrancabermeja (e ao ardor do suor no olho!). Estou me acostumando a escutar as pessoas repetindo o que acabei de dizer com um sotaque que aparentemente é o meu, o qual custo acreditar que realmente falo assim. Estou criando dentro de mim o “orgulho latino”, conhecendo mais sobre minhas raízes e me sentindo em em casa mesmo estando em outro país. Estou em constante aprendizado sobre o contexto e já se tornou familiar o sentimento de estar  perdida em nomes de organizações ou de líderes comunitários, em jargões ou simplesmente uma piada interna. Estou em uma montanha russa de emoções ao me envolver com os casos das comunidades, em chorar suas derrotas e me alegrar com suas vitórias.

E ao refletir sobre esse último ano e lembrar sobre a proposta do programa, vejo que me imaginei em outro lugar: imaginei que poderia discursar lindamente sobre o pacifismo, sobre como vale a pena lutar pela paz e como são lindas todas as ações não violentas para resolução de conflitos.

Fernanda Bussinger, Carolina Perez e eu na “Marcha por las Victmas” at the Victims March in Bogotá

Mas percebi que não posso falar isso porque acredito que minha pequena experiência não me permite, principalmente porque o pacifismo me tem parecido bastante paradoxal. Vejo que pacifismo, às vezes, é chorar de raiva ante a injustiça. É xingar bem baixinho para conseguir aguentar. É, às vezes, deixar que alguém nos segure quando existe descontrole. É fechar os olhos e contar até 10, ou até 100, ou até mil. É sentir que minha forca física vai tornar tudo mais complicado, nem por isso deixar de sentir vontade de dar um murro em alguém. É pedir paciência pra Deus. Pedir paciência para meus irmãos e irmãs. É orar. E é celebrar também. É acreditar “que a esperança não falha e que a justiça não tarda”.

Minha oração e esperança é que esse ano seja tão bom e cheio de aprendizado como o ano passado.    Que continuemos aprendendo o que significa “construção de paz” com a vida em comunidade, nas noites em que olhamos as estrelas do céu da Colômbia e dividimos um refrigerante e histórias de nossas vidas. Quando tomamos um “tinto con panela”: café com rapadura bom demais e que só se encontra nas comunidades rurais colombianas. Nas gargalhadas das crianças que correm sujas de barro quando brincam na rua. Tão felizes… Com o pôr do sol do rio Magdalena, um dos mais impressionantes que já vi e que nenhuma foto jamais faria jus. Que continuemos encontrando respostas e perguntas na força das pessoas que tanto têm nos inspirado e nos ensinado o que é lutar pela paz.

Por: Carolina Gouveia